Nesse último quarto de século, mais precisamente nos 23 anos recentes, o Brasil se tornou um país repleto de contrastes e contradições, situação que merece ser estudada a fundo pelos intelectuais e cientistas políticos.
Para entendermos como o país mergulhou nesse pesadelo, é preciso recorrer aos episódios históricos. Os governos vencedores das últimas seis campanhas eleitorais presidenciais se apresentaram como os vocacionados a cuidar e governar para os brasileiros mais necessitados. Foram feitas promessas em abundância, assegurando retirar da pobreza milhões de brasileiros e, ao mesmo tempo, proporcionar um sistema de saúde amplo e eficiente, além de educação de qualidade, priorizando os professores.
Propagaram a ideia de que somente governos dos partidos do centro-esquerda, apresentados como os únicos verdadeiramente honestos e de fato preocupados com os pobres, são vocacionados a servir a população. O discurso em cinco das últimas seis campanhas eleitorais funcionou, e então o Brasil foi governado pelo mesmo partido, o PT, por 17 anos (2003 a 2006, 2007 a 2010, 2011 a 2014 e desde 2022), sendo 11,3 anos (2003 a 2010 e de 2023 até hoje) por Luiz Inácio Lula da Silva, incontestavelmente seu líder maior e novamente pré-candidato para mais quatro anos, apesar de completar 80 anos de idade no próximo mês de outubro.
Também se apresentaram como os únicos compromissados em banir os corruptos, levando-os à Justiça para pagarem por seus crimes com dezenas de ano de prisão. O mote se repetiu, assegurando que somente os governos honestos podem assegurar o desenvolvimento econômico e social, com redução da pobreza e das injustiças.
No entanto, convém destacar que a democracia plena somente pode ser alcançada com a harmonia dos três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário, condição indispensável para a busca de unidade nacional com plenas liberdades econômicas, políticas e de expressão, assegurando à oposição o direito à livre opinião, ao protesto e à crítica, tudo desejável e comum em qualquer nação efetivamente democrática.
Nessas campanhas também foi prometido que não seriam criados tributos nem haveria aumento dos já existentes, sob o argumento de que os recursos financeiros então existentes já seriam suficientes para a implementação de um governo comprometido em seus programas. Os sinais são de que tudo se repetirá agora na próxima campanha, possivelmente mais onerosa e com maior plasticidade em face do desgaste do candidato e o passivo de não cumprimento de muitas de suas promessas.
O que temos após 2002 são dois Brasis muito diferentes. Existe o Brasil das campanhas eleitorais, retratado como maravilhoso, e o Brasil real, este vivido pelos cidadãos comuns, de carne, osso e estômago, em situação absolutamente diversa à dos donos do poder, pois se aproximam dos vassalos das antigas capitanias hereditárias dos tempos coloniais.
Esse enorme contraste merece isentos estudos socioeconômicos e comportamentais, com diagnóstico preciso. Está na hora do case Brasil.
Os dados e informações oficiais governamentais e internacionais já são suficientes para nos dar um panorama de qual o Brasil legado aos cidadãos nesse período.
Quando se fala sobre combate à corrupção, o discurso oficial não se sustenta diante dos dados da Transparência Internacional. Em 2002, no final do governo FHC, o Brasil ocupava a 45ª posição no ranking do índice de percepção da população. Em 2010, ao fim do primeiro governo Lula, o país havia caído para a 69ª colocação. Quando Dilma Rousseff deixou o governo, em 2016, o Brasil já amargava a 79ª colocação e agora, 10 anos depois, sob o governo Lula, a posição é ainda mais vergonhosa: 107º lugar. Significa dizer que temos 106 países com setor público mais honesto que o do Brasil. (Um vexame!)
Segundo entidades renomadas, a corrupção no Brasil já corresponde a cerca de 2,5% a 3% do PIB nacional, ou seja, de R$ 320 bilhões a R$ 381 bilhões/ano. Estranhamente, não obstante tamanha subtração de recursos que poderiam ser destinados à educação, saúde, segurança e habitação, não há nenhum político cumprindo pena de prisão por corrupção no país. Tal situação alimenta a sensação de impunidade e o senso comum de que a corrupção é tolerada e a impunidade, garantida. O sentimento vigente é de que o crime compensa, péssimo exemplo para as futuras gerações.
A Operação Lava Jato foi uma oportunidade histórica para o país tratar a questão de maneira contundente. As investigações e posteriores processos penais levaram ao encarceramento de 285 pessoas formalmente acusadas de corrupção ativa e passiva, condenadas por um juiz de primeira instância e por colegiado de segunda instância. Mais de 200 acordos de colaboração premiada (delação, no caso das pessoas físicas, e leniência, no caso de pessoas jurídicas) foram assinados com aprovação do Ministério Público Federal e devidamente homologados em juízo, muitas vezes por ministros das cortes superiores. Bilhões de reais desviados pelos corruptos e corruptores foram objeto de confissão e devolvidos aos cofres públicos. A restituição de outras dezenas de bilhões de reais foi prometida nos acordos celebrados.
No entanto, tudo mudou a partir de 2021. O STF anulou diversas condenações alegando incompetência do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, inclusive aquelas já confirmadas anos antes por colegiados de segunda instância. A bem da verdade, as anulações ocorreram por falhas processuais e, sem análise do mérito, 61 acusados foram descondenados – nenhum inocentado –, inclusive aqueles com penas de mais de 200 anos de prisão.
Quando se fala do Índice de Desenvolvimento Humano, revela-se ainda mais o Brasil real. O IDH foi criado pela ONU (Pnud) para avaliar o programa de longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano, indo além da simples medição econômica. Concentra-se em saúde (longevidade – expectativa de vida ao nascer), educação (conhecimento, medido pela média de anos de estudo em adultos e anos esperados para crianças) e renda (padrão de vida, medido pela renda nacional per capita). Também nesses aspectos o país vai muito mal.
Embora seja a 10ª economia mundial, o Brasil ocupa apenas a 78ª posição em renda média per capita e a 87ª colocação no ranking de IDH da ONU. Em Educação, o país está reprovado. Atualmente fica em 63º lugar em matemática e 56º em Letras e Ciências, muito atrás de nações mais pobres e desenvolvidas da América do Sul. O país ainda tem 4% da população que não sabe ler nem escrever e 29% da população entre 15 e 64 anos de idade estão classificados como analfabetos funcionais.
A segurança pública aparece nos primeiros lugares entre as maiores preocupações dos brasileiros em todas as pesquisas. E não sem razão. O Brasil é líder absoluto no mundo em número absoluto de homicídios – intencionais ou não –, seguido de Nigéria, México, Índia e África do Sul. Esses cinco países, somados, foram responsáveis por 40% dos homicídios cometidos no mundo todo em 2024. Em homicídios per capita, estamos na 11ª posição, com 22,38 mortes a cada grupo de 100 mil habitantes, praticamente quatro vezes mais do que a média global. Salvador (com 66,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes) é a capital mais violenta, seguida de Macapá (55,8/100 mil) e Manaus (55,7/100 mil). São índices assustadores, alimentados pelo narcotráfico e pelo domínio crescente de facções criminosas e milícias, cada vez mais poderosas.
Em termos de remuneração dos trabalhadores, o Brasil está igualmente reprovado. O salário mínimo brasileiro corresponde a apenas 300 dólares, o sétimo menor valor na América do Sul. Perde para a Guiana (US$ 335), Paraguai (US$ 350), Bolívia (US$ 362), Equador (US$ 462), Chile (US$ 504) e Uruguai (US$ 867).
Dados do IBGE e do Banco Mundial mostram que a pobreza atinge 4,45% da população brasileira. Em pleno século XXI, são quase 10 milhões de pessoas vivendo em condições de extrema pobreza, com renda média inferior a R$ 209 por mês, ou seja, R$ 6,97 por dia, o correspondente a cerca de 13% do salário mínimo vigente.
Mais de um quarto (27,55%) dos brasileiros – ou seja, 59 milhões de pessoas – vive na pobreza. Somados aos que estão na pobreza extrema, temos 32% da população brasileira vivendo com menos de R$ 665,00/mês, ou cerca de 40% do salário mínimo.
Não é muito melhor a condição dos aposentados e pensionistas do INSS. Os proventos de 62,5% desses beneficiários estão limitados a um salário mínimo. São 21 milhões de pessoas nessa condição. No setor privado, são 31 milhões de trabalhadores com carteira assinada com remuneração de até um salário mínimo. Isto é: quase 60% da população brasileira têm, em 2026, renda mensal inferior a R$ 1.621,00. Esse valor corresponde a apenas 37% do salário mínimo do Uruguai, a 64% do salário mínimo do Chile e a 90% do salário mínimo da Bolívia.
São números oficiais a demonstrar que os governos brasileiros parecem gostar muito da pobreza, da qual se servem politicamente, e não gostar nada dos pobres, sempre sacrificados.
Com baixíssima renda mensal, os brasileiros ainda sofrem sem condições dignas de moradia. Segundo dados da PNAD Contínua 2026, do IBGE, 16,3% da população ainda vivem em habitações consideradas como favelas e desprovidas de serviços essenciais, como esgotamento e tratamento sanitário. O sonho da casa própria continua distante: 21% moram em imóveis alugados e o déficit habitacional atinge 5,97 milhões de domicílios.
O país se orgulha de figurar entre as 10 maiores economias do mundo, porém, está na rabeira entre as nações mais competitivas do planeta: apenas o 62º lugar entre 67 países analisados.
A vida do brasileiro ainda é dificultada pela taxa de juros reais que chega a 9,51% ao ano, segundo maior índice no mundo, superado apenas pela Turquia (12,34% ao ano). O aumento da carga tributária no governo atual é o maior da história do país e, apesar disso, o déficit nominal brasileiro chega a 9% do PIB. É o segundo maior déficit nominal entre todas as nações.
As contas públicas estão comprometidas. Pela primeira vez na história, em 2025 o governo pagou mais de R$ 1 trilhão apenas em juros. O déficit previdenciário da União já soma R$ 400 bilhões, o correspondente a 3% do PIB e mais de 9% de todas as receitas.
Nada disso, entretanto, aparece nos discursos oficiais. Na propaganda do governo, o Brasil é outro, próspero e repleto de benefícios à população. Um país absolutamente distinto da realidade vivida pela enorme maioria dos brasileiros, esse povo muito lembrado no período eleitoral. Um povo sempre esperançoso, mas que ainda está longe de ver a nação mais justa para todos os seus cidadãos. Isso somente será possível quando não houver mais dois Brasis – o real e o da propaganda –, mas somente um, economicamente forte, competitivo, com as contas públicas ajustadas, inflação controlada, juros baixos, serviços públicos de qualidade, mais segurança, mais renda, corrupção combatida, menos pobreza, menos discurso e mais condições dignas de vida a todos os brasileiros, independentemente do estado onde moram.
A esperança maior é que, nas próximas eleições de outubro, os brasileiros votem considerando a realidade dos cidadãos de carne e osso, e não iludidos pela narrativa de um Brasil fantasioso, anabolizada pela sempre bem produzida propaganda de rádio e televisão do período eleitoral.