O atual presidente da República e pré-candidato à obtenção de um quarto mandato foi eleito em 2022 com apenas 38,56% dos votos dos eleitores aptos. Foi um sinal claro de que os candidatos que se apresentaram naquele pleito não eram os mais desejados pelo povo brasileiro. Haja vista, também, que a abstenção e os votos brancos e nulos somaram mais de 24% do eleitorado, conforme a apuração final feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso correspondeu a praticamente um quarto do eleitorado e o número se igualou a 40% dos votos obtidos pelo vencedor.
Naquela eleição, as pesquisas do DataFolha para o segundo turno já identificavam a insatisfação da maioria dos eleitores, expressada pela rejeição aos dois candidatos: Lula, 45%, e Jair Bolsonaro, 50%. Trata-se de um movimento crescente, pois, em agosto de 2022 os índices de rejeição eram, respectivamente, de 36% para Lula e de 47% para Bolsonaro. Vale lembrar que rejeição significa a decisão do eleitor de não votar de jeito nenhum em determinado candidato (o que um instituto de pesquisa chega a qualificar de ojeriza àquele postulante específico), por ter desconfiança e/ou repulsa às atitudes comportamentais do candidato, especialmente às mentiras e atos de suspeição de corrupção.
Passados quatro anos, a situação não é diferente. Pesquisas do DataFolha e do Ipec/Ipsos mostram que a maioria dos eleitores aptos a votar em outubro (158.864.999 brasileiros, de acordo com dados mais recentes do TSE) mantém seu descontentamento com a classe política brasileira. O sentimento é de que os partidos insistem em manter e priorizar os mesmos candidatos ou aqueles que levam o nome de família, já rejeitados no último pleito. A comprovação do descontentamento está na constatação de que a rejeição aos candidatos permanece elevadíssima.
Há razões para esse cenário. Por exemplo, a análise das últimas avaliações do terceiro governo Lula, segundo pesquisas Ipec/Ipsos de junho e julho, comentada pela CNN-Brasil, mostra que a avaliação ruim ou péssima é altíssima em setores essenciais: saúde (46%), segurança pública (47%), combate à inflação (49%) e economia e controle de gastos (57%).
A última pesquisa do Atlas/Intel, de junho de 2026, corrobora o grau de insatisfação do eleitorado brasileiro, com resultados ainda mais expressivos. Segundo esse levantamento, na área de Educação, 49% dos eleitores consideram o governo “ruim ou péssimo”. Na saúde, a reprovação é de 46%; na segurança pública, de 54%; no combate à inflação, também de 54%; e é ainda maior quando o assunto é economia e corte de gastos, com 55% de insatisfeitos.
A reprovação poderia ser ainda maior se todos os brasileiros tivessem conhecimento de que a corrupção retira dos cofres públicos de R$ 340 bilhões a R$ 540 bilhões por ano, o correspondente a 2,5% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo estimativa da FGV-Ibre. O estrago é ainda mais expressivo na estimativa do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que calcula o rombo da corrupção duas vezes maior, entre R$ 675 bilhões e R$ 945 bilhões anuais.
São números que dão a dimensão do volume de recursos que os corruptos e corruptores reiteradamente retiram dos serviços essenciais à população. Somente a título de exemplo, o SUS, que presta serviços de saúde amplos à população em todo o território nacional, tem custo total de R$ 220 bilhões/ano. Esse investimento poderia ser dobrado com o dinheiro sugado pela corrupção. O mesmo poderia acontecer com a segurança pública, que hoje registra mais de 35.000 homicídios/ano. A injeção de mais R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões por ano nesse segmento seria reforço substancial no combate mais efetivo às facções e organizações criminosas que hoje desafiam o Estado e tiram a tranquilidade e o sono das pessoas de bem.
O Índice de Percepção da Corrupção (IPC), criado pela Transparência Internacional, mostra de maneira inquestionável a decadência ético-moral e de honestidade no Brasil. Nesse índice, o Brasil ocupava a 45ª posição em 2022 e hoje amarga a 108ª colocação. Queda substancial. E o que isso significa? Que existem 107 países com o setor público mais honesto que o do Brasil. Uma vergonha nacional!
Agora, no mês de julho, o Poder Data divulgou sua mais recente pesquisa popular. O resultado: para 49% dos entrevistados, a corrupção cresceu no governo atual e, segundo o Atlas-Intel, 85,9% da rejeição ao governo atual se deve à corrupção avassaladora; daí a reprovação ao governo atual.
Nesse aspecto, vale lembrar o que disse o humorista, dramaturgo e apresentador Jô Soares a respeito dessa praga que aflige o país há tanto tempo: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade tem muito a ver com o Brasil”.
É triste – e, especialmente, preocupante – ver a corrupção crescendo exponencialmente, a impunidade tolerada e a indignação já praticamente inexistente. Nossas prisões estão superlotadas, mas não por causa dos corruptos, que são raríssimos no cárcere. Cúmulo do absurdo: hoje já temos até alguns corruptos com crachá de autoridade.
A situação geral do país provoca desaprovação relativa a todas as esferas de poder. Pesquisa realizada pelo instituto Futura-Apex entre 7 e 11 de julho mostra que é alta a rejeição do brasileiro em relação às cúpulas dos três poderes: Executivo (49,7%), Legislativo (67%) e Judiciário (52,3%). Metade – e até mais – da população está insatisfeita com o desempenho do presidente da República, dos senadores e deputados federais e dos juízes e ministros dos tribunais superiores, principalmente do STF, em razão de sua maior exposição na mídia, que noticia e repercute suas decisões.
Vale rebater o senso comum de que o brasileiro não sabe votar. Esse pensamento é rebatido pelas pesquisas que atestam elevados percentuais de rejeição – sempre acima de 48% – a candidatos à Presidência da República e ao Congresso Nacional. Na realidade, o eleitor sente a falta de informações confiáveis, sem viés ideológico ou partidário.
Falta à classe política fazer a leitura do que os eleitores estão expressando por meio das pesquisas, dizendo “não” aos nomes resultantes da polarização (já reprovados) e se mostrando ansiosos por novos nomes como opção de escolha.
Ainda é tempo dos políticos voltarem a priorizar o país e os 213 milhões de brasileiros. O Brasil tem jeito. Mas depende de um despertar, necessita de um grande concerto nacional com menos conformismo e mais indignação, ações assertivas e a certeza de que o cidadão merece muito mais do que hoje lhe é oferecido. A rejeição já expressada em relação aos pré-candidatos é o maior sinal disso. O alerta foi ligado.